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O solo que respira
Estudo no Cerrado revela como raízes, matéria orgânica e sistemas de manejo reorganizam a estrutura dos Latossolos — e mostra que preservar carbono pode depender menos da quantidade de argila do que da vida que permanece no solo
Por Laercio Damasceno - 18/09/2026


Imagem: Reprodução


Durante muito tempo, a estrutura de um solo pôde parecer, aos olhos humanos, uma propriedade quase imóvel: partículas minerais reunidas em uma massa aparentemente estática, sobre a qual se planta, colhe e volta a plantar. Mas, sob a superfície dos Cerrados brasileiros, o solo é um sistema em permanente transformação. Raízes, microrganismos, resíduos vegetais, água e minerais participam de uma arquitetura dinâmica na qual a formação e a ruptura dos agregados determinam quanto carbono permanece armazenado, quanta água consegue infiltrar e quão resistente o terreno será à erosão.

Um estudo conduzido por Isaias da Silva Pereira, doutor em Engenharia Civil - Universidade Federal de Viçosa. Sanitária e Ambiental. Professor do Colégio Técnico de Floriano da Universidade Federal do Piauí (UFPI), em um Latossolo Vermelho-Escuro do Cerrado brasileiro comparou seis condições de manejo — Cerrado sensu stricto, Eucalipto, Pastagem, Plantio Direto, Grade Pesada e Arado de Disco — e encontrou diferenças expressivas na agregação, na estabilidade estrutural e nos teores de carbono orgânico. O trabalho utilizou 150 amostras, obtidas em cinco profundidades, de 0–5 até 30–40 centímetros, permitindo observar não apenas a superfície, mas também a evolução desses atributos ao longo do perfil.

A conclusão central desafia uma interpretação simplificada da qualidade do solo: ter mais agregados não significa necessariamente possuir a estrutura mais estável.

A Pastagem apresentou os maiores percentuais de macroagregados. O Cerrado sensu stricto, entretanto, registrou os maiores valores de diâmetro médio ponderado (DMP), indicador que incorpora o tamanho dos agregados e sua resistência à ruptura em água. As correlações entre DMP e macroagregados variaram de 0,83 a 0,99, indicando uma associação muito forte entre os dois atributos, embora eles não sejam equivalentes.

“Agregação e estabilidade estrutural não representam exatamente o mesmo atributo físico”, afirma Isaias Pereira. A distinção é importante: enquanto a Pastagem favoreceu intensamente a formação de agregados, o Cerrado produziu estruturas aparentemente mais resistentes à ação da água.

A explicação está, em parte, abaixo do nível que normalmente recebe atenção. O sistema de raízes funciona como uma rede subterrânea que contribui para aproximar partículas, fornecer carbono e estimular a atividade microbiana. No estudo, a Pastagem, dominada por gramíneas do gênero Brachiaria, apresentou elevada agregação associada ao desenvolvimento radicular e à renovação contínua das raízes. O Cerrado, por sua vez, combinou cobertura vegetal permanente, diversidade biológica e ausência de revolvimento mecânico.

O contraste torna-se ainda mais evidente quando o carbono orgânico entra na equação.

Os maiores teores médios de carbono foram encontrados no Cerrado sensu stricto e no Plantio Direto: 2,27 dag kg -1 . A Pastagem apresentou 2,16 dag kg -1, enquanto Arado de Disco, Eucalipto e Grade Pesada registraram 1,86 dag kg-1. Além disso, os teores de carbono diminuíram com o aumento da profundidade em todos os sistemas avaliados, refletindo a maior concentração de resíduos vegetais e atividade biológica nas camadas superficiais.

O Plantio Direto merece atenção particular. Sem o revolvimento mecânico e com manutenção da palhada sobre a superfície, o sistema apresentou elevada capacidade de conservação do carbono. Segundo a pesquisa, a cobertura reduz a amplitude térmica, diminui perdas provocadas pela erosão e limita a exposição da matéria orgânica à decomposição.

O comportamento oposto apareceu no Arado de Disco. Nesse sistema, a densidade do solo alcançou 1,09 Mg m-3 enquanto os menores valores foram observados no Eucalipto (0,85 Mg m-3) e no Cerrado sensu stricto (0,93 Mg m-3). O revolvimento rompe os agregados e expõe matéria orgânica anteriormente protegida no interior dessas estruturas.

Há, contudo, um resultado particularmente revelador: a Grade Pesada.

Embora submetida anteriormente a intenso revolvimento, a área permaneceu aproximadamente dois anos em pousio sob cobertura de Brachiaria decumbens. Nesse período, seus indicadores estruturais se aproximaram daqueles registrados nos sistemas conservacionistas. Para o estudo, o resultado evidencia uma expressiva capacidade de resiliência dos Latossolos quando a perturbação mecânica cessa e os processos biológicos são restabelecidos.

O achado amplia a discussão sobre recuperação de solos degradados. Ele sugere que a restauração da estrutura não depende exclusivamente de intervenções mecânicas ou químicas, mas pode ser impulsionada pela interrupção da perturbação e pela retomada da cobertura vegetal.

Outro resultado desloca o foco da mineralogia para a biologia. Os teores de argila variaram entre 410 e 716 g kg-1 , mas não houve correlação significativa entre argila e macroagregados. Isso indica, para os sistemas avaliados, que a textura não foi o principal fator controlador da agregação. A pesquisa atribui maior importância à matéria orgânica, às raízes, à microbiota e aos processos associados ao manejo.

A interpretação dialoga com o modelo hierárquico de agregação proposto por Tisdall e Oades (1982), segundo o qual raízes, hifas fúngicas e compostos orgânicos participam da formação e estabilização dos macroagregados. Também converge com o conceito de estabilização da matéria orgânica desenvolvido por Six et al. (2002) e von Lützow et al. (2006), no qual a proteção física dentro dos agregados atua conjuntamente com a proteção organomineral promovida pela interação entre compostos orgânicos e superfícies minerais.


Nesse cenário, o carbono não está simplesmente “presente” no solo. Ele é protegido.

Parte dessa proteção ocorre fisicamente, quando a matéria orgânica fica incorporada ao interior dos agregados e menos exposta aos microrganismos decompositores. Outra parcela resulta das interações entre compostos orgânicos e minerais, incluindo caulinita e óxidos de ferro e alumínio, predominantes nos Latossolos altamente intemperizados do Cerrado.

A consequência ultrapassa a questão climática. A matéria orgânica também contribui para a fertilidade. A capacidade de troca catiônica variou de 7,42 a 11,04 cmolc dm-3, com o maior valor registrado no Plantio Direto. Os sistemas com maiores teores de carbono apresentaram também maiores valores de CTC, sugerindo a contribuição da matéria orgânica para a geração de cargas negativas e para a retenção de nutrientes.

O estudo, originalmente baseado em dados de uma dissertação de mestrado de 1997, foi reinterpretado sob uma perspectiva integrada de agregação, estabilidade estrutural e mecanismos de conservação do carbono. Essa abordagem permite revisitar dados antigos à luz de uma questão contemporânea: como produzir em solos tropicais sem destruir os processos que os mantêm funcionais?

A resposta sugerida pelo trabalho não está em uma única variável. Ela emerge da interação entre cobertura vegetal, matéria orgânica, raízes, microrganismos, agregados e minerais.

No Cerrado, portanto, conservar o solo pode significar mais do que evitar sua erosão. Pode significar preservar uma arquitetura viva — invisível na superfície, mas decisiva para determinar quanto carbono permanece armazenado, quanta água penetra no terreno e por quanto tempo a fertilidade física e química poderá sustentar a produção.

A mensagem final do estudo é direta: a matéria orgânica aparece como elo entre estabilidade estrutural, conservação do carbono e qualidade química do solo.

 

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